Do ​​campo de batalha à mesa de negociações, o árduo caminho para a paz entre Rússia e Ucrânia-Xinhua

Do ​​campo de batalha à mesa de negociações, o árduo caminho para a paz entre Rússia e Ucrânia

2026-10-28 10:35:28丨portuguese.xinhuanet.com

Foto tirada em 17 de setembro de 2026 mostra fumaça após um ataque com drones e mísseis em Kiev, na Ucrânia. (Xinhua/Li Dongxu)

Moscou, 26 out (Xinhua) -- À medida que a Rússia e a Ucrânia se preparam para mais uma rodada de negociações trilaterais mediadas pelos EUA, que pode começar já em 10 de novembro, em Abu Dhabi, a desconfiança persistente e os objetivos conflitantes dos dois lados tendem a dificultar as tratativas.

O principal impasse, que envolve concessões territoriais e garantias de segurança, permanece sem solução: a Rússia exige que a Ucrânia adote um status de neutralidade e não integre a OTAN, enquanto Kiev insiste em compromissos de defesa vinculativos por parte do Ocidente para assegurar sua segurança futura.

NARRATIVAS CONFLITANTES SOBRE O CAMPO DE BATALHA

A Rússia e a Ucrânia continuam apresentando relatos divergentes sobre os desdobramentos recentes no campo de batalha. Moscou alega avanços constantes ao longo de toda a frente de combate, enquanto Kiev contesta essas afirmações.

Durante uma reunião com a liderança do Estado-Maior e comandantes de alto escalão, no dia 16 de outubro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse que as forças russas assumiram o controle de cerca de 6.500 quilômetros quadrados de território e 310 localidades desde o início do ano.

Putin acrescentou que pouco mais de 10% da região de Donetsk e 16,5% da região de Zaporizhzhia permanecem sob controle ucraniano, ao passo que a região de Luhansk está totalmente sob controle russo.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, refutou posteriormente as alegações russas, classificando-as como falsas. Ele disse que as forças ucranianas “libertaram mais território do que os russos capturaram” desde o início do outono, acrescentando que o mesmo ocorreu em outros momentos ao longo deste ano.

Segundo o Ministério da Defesa da Ucrânia, a Operação Vivaldi, uma contraofensiva ucraniana realizada entre maio e meados de outubro, recuperou 277 quilômetros quadrados de território e frustrou o plano da Rússia de cercar as cidades ainda sob controle ucraniano na região de Donetsk.

Foto tirada em 8 de setembro de 2026 mostra bombeiros combatendo um incêndio em um edifício após ataques russos em Kiev, na Ucrânia. (Foto de Peter Druk/Xinhua)

Enquanto isso, ambos os lados têm realizado ataques em larga escala contra a infraestrutura energética e industrial-militar um do outro, sem qualquer sinal de redução duradoura da escalada.

Segundo o chefe do Estado-Maior das Forças Armadas da Rússia, Valery Gerasimov, o país tem mantido ataques em larga escala contra a infraestrutura militar-industrial, logística, energética e de transporte da Ucrânia, priorizando locais de produção, armazenamento e lançamento de mísseis e drones.

Relatos recentes na mídia indicam que ataques russos à infraestrutura energética ucraniana provocaram cortes de energia em Kiev e em outras regiões. Por outro lado, a Rússia enfrentou graves interrupções na internet, decorrentes de ataques ucranianos a centros de dados da Yandex e do Sberbank, além de uma crise interna de combustíveis, causada por ataques de drones a diversas refinarias de petróleo.

EXIGÊNCIAS DIVERGENTES PARA A PAZ

No início deste ano, representantes dos três países realizaram negociações trilaterais em Abu Dhabi e em Genebra. No entanto, houve pouco progresso além da troca de prisioneiros de guerra, uma vez que Moscou e Kiev mantiveram suas exigências fundamentais.

A segunda rodada de negociações entre a Rússia e a Ucrânia, mediada pelos Estados Unidos, ocorre em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos (EAU), em 4 de fevereiro de 2026. (WAM/Divulgação via Xinhua)

Na semana passada, o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, se reuniu separadamente com Zelensky, em Oslo, e com Putin, em São Petersburgo. As partes concordaram em retomar as negociações trilaterais em novembro.

Apesar dos esforços diplomáticos mediados pelos EUA, a Rússia e a Ucrânia ainda parecem pouco dispostas a ceder em seus objetivos territoriais e de segurança, o que pode tornar as próximas negociações meramente simbólicas.

Moscou disse repetidamente que só aceitaria um acordo de paz definitivo que abordasse as origens do conflito, e não um “congelamento” na linha de contato. No entanto, suas condições equivalem, na prática, à capitulação da Ucrânia.

No início de outubro, o vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia, Dmitry Medvedev, reiterou que uma “paz duradoura” exige que a Ucrânia ceda todos os territórios reivindicados pela Rússia, incluindo as regiões de Donetsk, Luhansk, Kherson e Zaporizhzhia; aceite um status de neutralidade e não nuclear, com forças militares drasticamente reduzidas; e abandone seu “rumo nacionalista”, revertendo as proibições à língua e à cultura russas. Se a Ucrânia não atender a essas exigências por via diplomática, a Rússia alcançará esses objetivos por meios militares, acrescentou ele.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse anteriormente que não haverá cessar-fogo que permita a Kiev se rearmar. A posição de Moscou reflete sua oposição de longa data à expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte para o leste, que considera uma ameaça à segurança nacional russa.

Foto tirada em 16 de maio de 2026 mostra o edifício do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, em Moscou. (Xinhua/Feng Kaihua)

A posição ucraniana sobre um acordo de paz aceitável difere substancialmente. O objetivo principal não é apenas manter o território, mas também obter garantias de segurança.

Em uma entrevista à rede americana ABC News na sexta-feira, Zelensky expressou disposição para chegar a um acordo de cessar-fogo, mas rejeitou propostas que envolviam a cessão de 25% do território ucraniano.

Zelensky também destacou uma estrutura de segurança abrangente para a Ucrânia durante uma coletiva de imprensa conjunta com o primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo, na quinta-feira. A proposta combina a adesão à OTAN, garantias diretas de segurança por parte dos EUA, respaldadas pelo Congresso, e o apoio de uma Coalizão de Voluntários liderada pela Europa, tudo isso estruturado em torno de um exército ucraniano forte e adequadamente financiado.

Alexander Baunov, pesquisador sênior do Carnegie Russia Eurasia Center, disse que representantes de ambos os lados descrevem as negociações territoriais como difíceis e tensas, alertando para que não se espere um avanço significativo.

Na mesma linha, Wang Jin, diretor do Centro de Estudos Estratégicos da Universidade do Noroeste, na China, observou que a Rússia e a Ucrânia possuem visões fundamentalmente distintas sobre os territórios em disputa, encarando o território, cada uma a seu modo, como um pilar da legitimidade política.

Diante das divergências nas principais exigências de ambos os lados para uma solução pacífica, analistas avaliam que ainda é incerto se a próxima rodada de negociações trará resultados realmente positivos.

A PAZ PERMANECE DISTANTE

Em 11 de outubro, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou, por meio das redes sociais, um “cessar-fogo energético” imediato entre a Rússia e a Ucrânia. Contudo, mais tarde, sugeriu que as partes jamais haviam concordado com essa medida antes de seu anúncio.

Após o anúncio, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, disse que Zelensky “não conquistou uma trégua”. Posteriormente, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reafirmou a posição russa de que é necessária “a paz, e não uma trégua”.

Zelensky disse que a Rússia continuou atacando instalações energéticas ucranianas logo após o anúncio de Trump, enquanto a Ucrânia havia se abstido de atingir a infraestrutura energética russa. Diante da continuidade dos ataques russos, Zelensky acabou suspendendo a proibição de realizar ataques contra refinarias de petróleo na Rússia.

O fracasso do “cessar-fogo energético” evidencia o paradoxo central dos atuais esforços diplomáticos: embora a Rússia e a Ucrânia estejam participando de negociações, nenhum dos lados parece disposto a ceder.

Segundo Andrey Kortunov, especialista do Valdai Discussion Club, na Rússia, qualquer progresso futuro dependerá da dinâmica no campo de batalha, de mudanças na elite política ucraniana e da flexibilidade por parte da Rússia.

Com Moscou e Kiev defendendo visões fundamentalmente incompatíveis, é provável que as negociações previstas para novembro sejam marcadas mais por dificuldades do que por qualquer avanço imediato.

O caminho do campo de batalha à mesa de negociações continua obstruído pela mesma desconfiança profundamente enraizada e pelas exigências maximalistas que, há anos, impedem a paz.

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