Por que os sistemas de refrigeração estão se tornando uma nova fronteira para ataques cibernéticos?-Xinhua

Por que os sistemas de refrigeração estão se tornando uma nova fronteira para ataques cibernéticos?

2026-11-08 12:53:48丨portuguese.xinhuanet.com

Pessoas fazem compras em um supermercado em Paris, na França, em 28 de agosto de 2026. (Xinhua/Wu Huiwo)

Paris, 6 nov (Xinhua) -- Os sistemas de refrigeração, equipamentos de uso cotidiano fundamentais para as cadeias de suprimento alimentar e a infraestrutura pública, estão se tornando cada vez mais alvos de ataques cibernéticos. Isso evidencia como a proteção inadequada desses dispositivos pode representar riscos graves para as operações comerciais e os serviços públicos.

O incidente mais recente envolveu instalações de armazenamento de plasma operadas pelo serviço nacional de sangue da França. O caso ocorreu após uma série de ataques semelhantes contra supermercados na França e em outros países europeus, que comprometeram sistemas de refrigeração e resultaram na perda de alimentos.

ALVOS EM EXPANSÃO

O Estabelecimento Francês do Sangue informou, em comunicado divulgado na noite de terça-feira, que, na segunda-feira, os "parâmetros de temperatura e de degelo foram ajustados para níveis extremamente elevados" em três de suas unidades de armazenamento refrigerado de plasma.

Sistemas de monitoramento detectaram o problema rapidamente, permitindo que a equipe tomasse medidas imediatas, de modo que "nenhum produto sanguíneo ou amostra fosse comprometido", disse o órgão.

O incidente seguiu-se a um ataque cibernético de grande escala contra supermercados franceses em meados de outubro, quando hackers elevaram a temperatura de refrigeradores e freezers em centenas de lojas para até 50 graus Celsius, causando incêndios e a deterioração de alimentos.

O ministro das Finanças da França, Roland Lescure, declarou ao Parlamento que cerca de 700 dos 10.000 supermercados do país foram afetados. Ele descreveu o episódio como um "sinal de alerta para todos", que "atinge o cerne da nossa segurança alimentar".

Uma nova onda de ataques semelhantes foi relatada na segunda-feira, atingindo supermercados em pelo menos nove países europeus, incluindo Bélgica, Estônia, Finlândia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Holanda, Portugal e Suécia. Os varejistas foram obrigados a descartar alimentos estragados após a elevação das temperaturas nos sistemas de refrigeração durante a noite.

O comissário europeu para a Agricultura e Alimentação, Christophe Hansen, disse que os ataques foram "uma tentativa deliberada de interromper nossa cadeia de suprimentos alimentares e minar a confiança dos consumidores nela", alertando que os incidentes exigem séria atenção.

SISTEMAS VULNERÁVEIS

O uso crescente de aparelhos conectados à internet criou novos riscos de cibersegurança. Katerina Mitrokotsa, professora de cibersegurança na Universidade de St. Gallen, na Suíça, observou que dispositivos com capacidade de processamento estão sendo tratados, cada vez mais, como eletrodomésticos ou equipamentos comerciais comuns, em vez de serem vistos como potenciais riscos à segurança.

Pessoas fazem compras em um supermercado em Paris, na França, em 28 de agosto de 2026. (Xinhua/Wu Huiwo)

Medidas de segurança deficientes também deixaram esses sistemas vulneráveis. "O ataque cibernético a supermercados franceses foi resultado da exploração de vulnerabilidades conhecidas", disse Liz Lloyd, ministra britânica para o Espaço, Cibersegurança e Reforma Regulatória, em um discurso. "É uma demonstração clara de que práticas inadequadas de segurança digital, como o uso de senhas fracas, continuam colocando organizações em risco".

Richard Horne, chefe do Centro Nacional de Cibersegurança do Reino Unido, disse que os refrigeradores afetados estavam "conectados diretamente à internet com senhas padrão de fábrica".

A falta de manutenção e supervisão adequadas é outro fator que contribui para o problema. "As organizações estão investindo pesadamente em IA e transformação digital, enquanto os sistemas que mantêm os alimentos refrigerados, a água limpa e as luzes acesas frequentemente operam com equipamentos que não recebem investimentos desde a instalação", explicou Nicole Carignan, vice-presidente sênior de segurança e estratégia de IA na empresa de cibersegurança Darktrace.

Além disso, a gestão dos sistemas de refrigeração dos varejistas afetados provavelmente foi terceirizada para empresas que dedicaram pouca atenção à segurança dos equipamentos, disse Munro, sócio de uma empresa britânica de cibersegurança.

FORTALECENDO AS DEFESAS

"Os varejistas precisam agir agora. Eles devem verificar se os controladores de seus refrigeradores estão vulneráveis, checar se estão conectados à internet, garantir que possuam as atualizações de segurança mais recentes e que ainda contem com suporte do fabricante", disse Frank Groenewegen, especialista em cibersegurança da Deloitte em Haia.

Caso os varejistas não tenham certeza sobre o nível de segurança de seus sistemas, ele recomenda que os desconectem imediatamente da internet pública. "A desconexão não resolve a causa do problema, mas, pelo menos, isola esses sistemas, impedindo que um invasor continue realizando esse tipo de ação".

A Agência da União Europeia para a Cibersegurança também defendeu uma cooperação mais estreita entre os Estados-membros, dizendo que os ataques generalizados a redes varejistas evidenciam a necessidade de um "compartilhamento rápido de informações e de respostas coordenadas a incidentes cibernéticos".

Horne ainda alertou que os ataques aos sistemas de refrigeração dos supermercados são apenas um primeiro sinal de interrupções que podem se tornar cada vez mais frequentes, à medida que tecnologias obsoletas não conseguem acompanhar a evolução dos hackers.

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