
Shanghai, 8 nov (Xinhua) -- A China e o Brasil estão transformando sua relação histórica de compra e venda de commodities em uma parceria de cooperação com desenvolvimento verde e tecnológico, como ficou evidente no Fórum Empresarial Brasil-China 2026, sob o tema "Parcerias Estratégicas para o Futuro".
Há 17 anos consecutivos a China é o maior parceiro comercial do Brasil, enquanto o Brasil é o maior parceiro comercial da China na América Latina. Segundo dados da Administração Geral das Alfândegas da China, o comércio bilateral somou US$ 148,24 bilhões de janeiro a agosto de 2026, um aumento anual de 23,9%. As exportações chinesas para o Brasil cresceram anualmente 22,4% para US$ 57,35 bilhões, enquanto as importações provenientes do Brasil subiram 24,9% para US$ 90,88 bilhões.
"A relação sino-brasileira vai muito além do comércio tradicional. Entramos em uma nova fase, na qual investimento, tecnologia e inovação industrial passam a ter um papel cada vez mais central", disse Victor Queiroz, chefe do Escritório Ásia-Pacífico da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em seu discurso no fórum, realizado em 4 de novembro em Shanghai.
MAIS VERDE EM INVESTIMENTOS
O investimento da China no Brasil já não se limita a vender produtos, mas também busca levar o sistema completo que integra energia eólica, solar e inteligência artificial (IA). Os setores tradicionais dos dois países também passam por atualização em diversas áreas, como a neutralidade líquida de emissões, a descarbonização e a IA.
"Segurança energética, minerais e cadeias de suprimentos são questões fundamentais diante do aumento da demanda por minerais críticos para tecnologias de ponta e para transição energética", disse Cláudia Trevisan, diretora-executiva do Conselho Empresarial Brasil-China.
A cooperação energética é o retrato mais direto dessa transformação. "Nos mercados emergentes do Sul Global, a energia limpa continua sendo ativo de industrialização, eletrificação e aumento de renda e do bem-estar da população", disse Li Weiyi, diretor de Soluções para Novos Sistemas Industriais na Envision Energy, subsidiária do Envision Group (China).
No ano passado, a Envision Energy firmou parceria estratégica com a empresa de energias renováveis Fotowatio Renewable Ventures (FRV) para desenvolver o projeto H2 Cumbuco de amônia verde no Ceará, Brasil. A Envision fornece solução integrada "renovável-hidrogênio verde-amônia verde" com coordenação por IA. O projeto prevê usina de hidrogênio verde com capacidade de eletrólise de até 500 MW e instalações para amônia verde, com operação prevista para 2030 e foco nos mercados do Brasil, Europa e Ásia.
Durante o período do 15º Plano Quinquenal (2026-2030), a China iniciou um programa nacional para construir fábricas de carbono zero em nível nacional, marcando um passo concreto na busca contínua do país por manufatura verde para apoiar suas metas de pico de carbono e neutralidade de carbono. Esse movimento encontra eco na estratégia de empresas chinesas que atuam no exterior, como a Envision. "Para os próximos cinco anos, a empresa integrará seus modelos de IA para gestão de energia e carbono e construirá um modelo mundial de parque industrial neutro em carbono", disse Li.
A atualização da cadeia logística dá sustentação ao comércio dos dois países. "Tradicionalmente, o navio que trazia bens do Brasil à China voltava vazio. Agora estamos construindo um casco multiuso: na ida, levamos contêineres, veículos elétricos e equipamentos de engenharia; na volta, a soja. É um novo modelo de negócio que já está em operação", explicou Li Zhen, vice-gerente-geral da COSCO SHIPPING Bulk Co., Ltd., no fórum.
A parceria é de longa data. Em 2014, a Vale e a COSCO firmaram uma aliança histórica: quatro navios Valemax de 400 mil toneladas foram transferidos à China e arrendados de volta pela mineradora por 25 anos, e outros dez navios de mesmo porte, construídos em estaleiros chineses, passaram a transportar minério brasileiro para a China. Em 2016, a Vale e o grupo COSCO selaram em Beijing um contrato de longo prazo de 27 anos, para cerca de 16 milhões de toneladas por ano.
Em maio de 2026, o navio "Yuanjianhai", de 400 mil toneladas, começou a atracar regularmente no porto de Caofeidian, Província de Hebei, no norte da China, carregado de minério brasileiro. Em dezembro de 2026, a companhia, que conta atualmente com 193 rotas de caminhão no Brasil cobrindo Santos e Rio de Janeiro, lançará a linha de contêineres do Extremo Oriente ao leste da América do Sul.
MAIS TECNOLÓGICOS EM COMÉRCIO TRADICIONAL
Há décadas, os setores de agricultura e manufatura sustentam o comércio sino-brasileiro. A Embraer, que desde 2000 opera no mercado chinês, já entregou 196 jatos comerciais e executivos a nove clientes, como China Eastern, China Southern e Sichuan Airlines, e teve o E195-E2 certificado pela Administração Estatal de Aviação Civil da China (CAAC) em 2023. No setor de celulose, a Suzano, uma importante fabricante brasileira, tem a China como principal destino de exportação desde que chegou ao país, nos anos 1980, e mantém subsidiária própria e um centro de inovação asiático em Shanghai.
Segundo Miguel Sieh, presidente da Suzano Ásia para Gestão de Negócios, o Brasil e a China têm fortalezas complementares. "Enquanto o Brasil tem recursos naturais abundantes, a China tem um ecossistema industrial muito avançado, um parque tecnológico e um sistema de inovação tecnológica, seja digital, seja industrial, que hoje é um dos mais promissores do mundo", apontou ele, acrescentando que, na trajetória da empresa, a China deixou de ser apenas um grande mercado, para onde se levava matéria-prima para apoiar as indústrias de papel, celulose e embalagem, e passou a ser uma plataforma de negócios e parcerias.
Agora, a tecnologia está atualizando o comércio das commodities na agricultura. A Embrapa, empresa pública brasileira de pesquisa agropecuária, é o parceiro científico da China há anos. Já em 2018, a Academia Chinesa de Ciências e a Embrapa fecharam acordo para pesquisa conjunta sobre melhoramento molecular da soja, cujo memorando foi assinado em 2019. Em setembro de 2026, a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, liderou uma missão institucional à China para ampliar a cooperação em áreas estratégicas de agricultura, genômica e bioinsumos. É a tecnologia que explica por que o Brasil é hoje o maior produtor mundial de soja, café, açúcar e carne bovina, e garante a segurança alimentar de dois gigantes.
"Vivemos um período de profundas e aceleradas transformações: a reorganização das cadeias produtivas, a transição energética, a digitalização da economia. Num quadro de instabilidades internacionais, a relação entre Brasil e China se destaca por sua estabilidade, maturidade e visão de longo prazo", disse Marcos Galvão, embaixador do Brasil na China, em seu discurso.
Segundo ele, o comércio continuará sendo um dos pilares, mas ganha cada vez mais importância a agenda dos investimentos e da cooperação tecnológica. "O futuro dessa relação será construído pela capacidade de nossos empresários e empresas de transformar essas complementaridades em projetos concretos", apontou Marcos Galvão.

