Funcionários da Kilimall separam mercadorias em um armazém em Mlolongo, Quênia, em 3 de junho de 2025. (Xinhua/Li Yahui)
Longe de ser simbólica, a política tem o potencial de desencadear um ciclo transformador de desenvolvimento econômico em toda a África, alinhando-se estreitamente com a própria evolução econômica da China.
Por Maya Majueran
Na 39ª edição da Cúpula da União Africana, no sábado, a China anunciou que implementará integralmente o tratamento de tarifa zero para 53 países africanos que mantêm relações diplomáticas com a China a partir de 1º de maio de 2026.
Não se trata apenas de uma atualização rotineira da política comercial, mas também de um sinal de como Beijing entende o desenvolvimento, a parceria e a influência no Sul Global.
Ao institucionalizar o acesso pleno ao mercado para as exportações africanas, a China se posiciona não apenas como o maior parceiro comercial da África, mas também como um importante motor da cooperação econômica, oferecendo um caminho alternativo para a integração na economia global, um caminho menos condicionado ao alinhamento político ou aos padrões de governança tradicionalmente impostos pelos sistemas liderados pelo Ocidente. Isso representa um marco significativo na cooperação Sul-Sul e oferece um plano concreto para a construção do que a China chama de "comunidade com futuro compartilhado para a humanidade".
Longe de ser simbólica, a política tem o potencial de desencadear um ciclo transformador de desenvolvimento econômico em toda a África, alinhando-se estreitamente à própria evolução econômica da China.
Em sua essência, a iniciativa de tarifa zero fortalece a soberania econômica africana. Ao remover as barreiras tarifárias, ela aborda diretamente uma das restrições mais persistentes do continente: a limitada competitividade das exportações. Produtos africanos, do café etíope e abacates quenianos ao peixe senegalês e cacau ganês, terão acesso mais fácil e competitivo ao segundo maior mercado consumidor do mundo. Fundamentalmente, não se trata apenas de exportar matérias-primas, mas de criar uma demanda estável e previsível que incentive a produção, a expansão e o desenvolvimento da cadeia de valor.
Os efeitos econômicos mais amplos podem ser substanciais. O acesso ampliado ao mercado chinês pode se traduzir em maiores volumes de exportação e em receitas cambiais mais estáveis. Esses fluxos são essenciais para a estabilidade macroeconômica: aliviam as pressões sobre a balança de pagamentos, reduzem a exposição à volatilidade cambial e ampliam o espaço fiscal para investimentos públicos em infraestrutura, saúde e educação. Com o tempo, essa estabilidade pode reduzir a dependência de financiamento emergencial e empréstimos condicionados do Fundo Monetário Internacional e de outras instituições dominadas pelo Ocidente, permitindo que os estados africanos superem os ciclos de gestão da dívida impulsionada pela austeridade, em vez de remanejar perpetuamente seus passivos.
Os efeitos sobre o emprego são igualmente significativos. Atender à demanda chinesa exigirá que os produtores africanos expandam suas operações, gerando empregos em toda a cadeia de valor, desde as fazendas e instalações de processamento até a logística, o transporte e o marketing. Para um continente com a população mais jovem do mundo e um desemprego persistentemente elevado, essa absorção de mão de obra tem um peso tanto econômico quanto político. A política comercial torna-se, assim, um instrumento visível para melhorar os meios de subsistência, aliviar as pressões sociais e traduzir o crescimento em resultados tangíveis, em vez de estatísticas abstratas.
O compromisso concomitante da China de fortalecer a capacitação profissional e apoiar a agricultura, a biotecnologia e a indústria reforça o impacto da liberalização tarifária, abordando restrições de longa data do lado da oferta. O objetivo é claro: levar as economias africanas além de um modelo restrito de exportação de matérias-primas. Beijing sinaliza apoio à modernização industrial e agrícola, e não apenas ao acesso isolado ao mercado.
A ênfase na agricultura é particularmente vital. Ao oferecer um mercado vasto e relativamente estável para os produtos agrícolas africanos, a China incentiva o investimento em produtividade e segurança alimentar. Uma renda de exportação confiável permite que os agricultores invistam em insumos, tecnologia e técnicas de produção aprimoradas, aumentando a produtividade tanto para o mercado de exportação quanto para o mercado interno. Um setor agrícola mais produtivo e resiliente torna-se, assim, a primeira linha de defesa contra a insegurança alimentar crônica.

Funcionário separa pimentas no Distrito de Nyagatare, Ruanda, em 22 de maio de 2025. (Xinhua/Ji Li)
Para a China, a política se alinha às prioridades econômicas internas. Uma África mais rica, com uma classe média em crescimento, representa um mercado futuro significativo para as exportações chinesas, desde bens de consumo a equipamentos industriais. Ao mesmo tempo, a transição da China para um crescimento impulsionado pelo consumo aumenta a demanda por importações, especialmente alimentos, produtos agrícolas e bens intermediários. Nesse sentido, a política reflete a concepção de Beijing de um "futuro compartilhado": uma integração mais profunda que apoia o desenvolvimento africano, ao mesmo tempo que reforça o próprio reequilíbrio econômico da China.
Gerenciada de forma eficaz, essa parceria constitui um acordo genuinamente benéfico para ambas as partes, em vez de uma relação comercial de soma zero.
Esse é o significado prático de um "futuro compartilhado". Não se trata de ajuda, mas de uma parceria fortalecida. A China ganha uma região parceira estável e em crescimento, diversifica suas cadeias de suprimentos e avança em seus objetivos econômicos estratégicos. A África obtém acesso sem precedentes a mercados, tecnologia e investimentos para construir sua base industrial e agrícola, gerar empregos e fortalecer sua estabilidade financeira.
Em um mundo cada vez mais fragmentado pelo protecionismo e pela rivalidade geopolítica, esse modelo de cooperação focado no desenvolvimento se destaca. Ele demonstra que a globalização pode ser remodelada para gerar resultados mais inclusivos. Ao se concentrar na capacidade produtiva da África, a China está lançando as bases para parcerias mutuamente benéficas que impulsionarão seu crescimento econômico futuro. A política de tarifa zero pode muito bem ser a chave que destrava esse ciclo virtuoso, provando que a prosperidade compartilhada não é apenas uma aspiração, mas economicamente alcançável.
Nota da edição: Maya Majueran é diretora da Iniciativa Cinturão e Rota do Sri Lanka, uma organização independente e pioneira com vasta experiência em consultoria e apoio à Iniciativa Cinturão e Rota.
As opiniões expressas neste artigo são da autora e não refletem necessariamente as da Agência de Notícias Xinhua.









