Por que a rodada mais recente de negociações comerciais entre Canadá e EUA fracassou?-Xinhua

Por que a rodada mais recente de negociações comerciais entre Canadá e EUA fracassou?

2026-08-25 10:43:52丨portuguese.xinhuanet.com

Clientes fazem compras em uma loja em Nova York, Estados Unidos, em 12 de agosto de 2026. (Xinhua/Zhang Fengguo)

Ottawa, 23 ago (Xinhua) -- O Canadá irá impor tarifas de valor equivalente "dólar por dólar" sobre cerca de 20 bilhões de dólares americanos em produtos dos EUA a partir de 8 de setembro, em retaliação às tarifas mais recentes de Washington, disse o primeiro-ministro Mark Carney no sábado.

As tarifas de 50% dos EUA, que incidem sobre um valor equivalente de produtos canadenses, entraram em vigor logo após a meia-noite de sábado, após o fracasso das negociações comerciais na sexta-feira, tensionando ainda mais as relações entre os dois antigos aliados.

FRACASSO DE ÚLTIMA HORA

Carney disse que suspendeu as negociações porque Washington introduziu mudanças de última hora que eram "injustas, antieconômicas e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo", embora os dois lados parecessem próximos de um acordo mutuamente benéfico no início da semana.

O presidente dos EUA, Donald Trump, assinou três proclamações em 20 de julho para impor tarifas adicionais de 50% sobre certos produtos do Canadá, citando o "tratamento discriminatório de Ottawa em relação aos produtos americanos".

Na terça-feira, Trump anunciou uma pausa de três dias na aplicação das tarifas, que deveriam entrar em vigor na quarta-feira, dizendo que os dois lados haviam chegado a um acordo, pendente apenas da finalização dos documentos formais.

Carney disse no sábado que o Canadá estava preparado para remover suas tarifas de retaliação restantes sobre aço, alumínio e automóveis dos EUA, caso Washington reduzisse substancialmente suas tarifas correspondentes, e também estava disposto a incentivar as províncias canadenses a devolverem as bebidas alcoólicas dos EUA às prateleiras das lojas.

"Eles pediram demais e ofereceram muito pouco", disse ele.

O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, fala à imprensa ao chegar à Cúpula da OTAN de 2026 em Ancara, Turquia, em 8 de julho de 2026. (Mustafa Kaya/Divulgação via Xinhua)

Segundo Carney, as propostas dos EUA restringiam a capacidade do Canadá de buscar acordos comerciais com outros países e prejudicavam as proteções do país à língua francesa, à cultura e à soberania nacional. Ele não revelou os detalhes dessas exigências.

Washington, no entanto, atribuiu o fracasso das negociações em grande parte a exigências de última hora feitas pelo Canadá, sendo as tarifas dos EUA sobre caminhões pesados ​​um dos principais pontos de impasse, informou o site do jornal americano Politico, citando pessoas a par das conversas.

"Eles sempre tiveram o melhor acordo, e ainda teriam um acordo ainda melhor, mas não quiseram isso", disse o representante de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, ao canal americano de notícias Fox News, acrescentando que não há novas negociações comerciais agendadas com o Canadá.

UMA RESPOSTA UNIDA

Em seu pronunciamento televisionado, Carney anunciou tarifas de retaliação contra aço, laticínios, eletrodomésticos, equipamentos agrícolas, celulose e papel, e eletrônicos dos EUA, prometendo divulgar os detalhes nos próximos dias.

"Você está em guerra quando é atacado, e nós fomos atacados", disse Carney ao ser questionado se o Canadá estava em uma guerra comercial com os Estados Unidos.

A postura firme de Carney obteve amplo apoio, transcendendo divisões partidárias e provinciais.

Pierre Poilievre, líder do principal partido de oposição, o Partido Conservador, pediu aos canadenses que permaneçam unidos contra "ataques injustos".

"O Canadá não pode aceitar tarifas unilaterais que desindustrializarão nosso país. Nem podemos aceitar um acordo ruim", disse ele.

Vários chefes de governo provinciais também apoiaram a decisão de Carney.

O primeiro-ministro de Ontário, Doug Ford, disse que o primeiro-ministro contava com seu "apoio total" para uma resposta firme, "tarifa por tarifa, dólar por dólar", pedindo aos líderes provinciais que permaneçam unidos como o "Time Canadá".

O primeiro-ministro da Colúmbia Britânica, David Eby, observou que as exigências dos EUA para que o Canadá cortasse ou reduzisse seu comércio com outros países o transformariam no "equivalente econômico do 51º estado", algo que ele descreveu como "inaceitável" para os canadenses.

O primeiro-ministro de Saskatchewan, Scott Moe, disse em um comunicado que, embora as tarifas dos EUA causem prejuízos, Carney tomou a decisão correta ao rejeitar um acordo "injusto e pouco confiável".

Cliente faz compras em um supermercado em Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá, em 17 de agosto de 2026. (Foto de Liang Sen/Xinhua)

Uma pesquisa recente da Leger revelou que 56% dos canadenses queriam que o governo adotasse uma postura firme e não fizesse mais concessões nas negociações com os Estados Unidos, e mais de 70% apoiavam medidas comerciais de retaliação mais severas.

UMA MUDANÇA MAIS AMPLA NAS RELAÇÕES ECONÔMICAS

Em seu discurso, Carney argumentou que a expansão da integração econômica entre o Canadá e os Estados Unidos, que durou décadas, havia chegado ao fim.

Ele acusou Washington de usar a integração econômica como arma.

"Reconhecemos desde o início que a América mudou e que não voltaremos à nossa antiga relação", disse Carney.

Ele também criticou as diferentes justificativas apresentadas pelos EUA para as tarifas, que vão desde o fentanil e um comercial de televisão citando o ex-presidente americano Ronald Reagan até pedágios em pontes e a fumaça de incêndios florestais, classificando-as como desprovidas de seriedade e altamente prejudiciais à confiança fundamental.

Desde que assumiu o cargo em 2025, o governo de Carney acelerou os esforços para reduzir a dependência econômica do Canadá em relação aos Estados Unidos e diversificar suas relações comerciais.

Ottawa tem buscado expandir o comércio com mercados na Europa e na Ásia, desenvolver portos e corredores de energia, eliminar barreiras comerciais internas e dobrar as exportações canadenses para mercados fora dos EUA na próxima década, disse Carney em seu discurso.

O colapso das negociações também trouxe incerteza quanto ao futuro do Acordo Estados Unidos-México-Canadá. O pacto continua em vigor, mas as tarifas americanas mais recentes também se aplicam a produtos canadenses que cumprem as regras do acordo, ao contrário de muitas tarifas anteriores impostas pelos EUA.

No entanto, a margem para uma mudança rápida permanece limitada. Os Estados Unidos ainda respondem por cerca de três quartos das exportações de mercadorias do Canadá, enquanto as cadeias de suprimentos transfronteiriças em setores como o automotivo e o de energia continuam profundamente integradas.

Paralelamente, Carney ressaltou a importância da energia canadense para os Estados Unidos, observando que o Canadá fornece 99% das importações americanas de gás natural, 85% das de eletricidade e 60% das de petróleo bruto.

"Não acredito que eles queiram que paremos de enviar esses produtos", disse ele.

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