Destaque: De volta às aulas em zonas de guerra-Xinhua

Destaque: De volta às aulas em zonas de guerra

2026-09-02 10:26:03丨portuguese.xinhuanet.com

Estudantes participam do primeiro dia de aula em uma escola provisória em Meiss El Jabal, no sul do Líbano, em 20 de outubro de 2025. (Foto de Ali Hashisho/Xinhua)

Beirute, 31 ago (Xinhua) -- Para a estudante universitária Reine Nasrallah, 21 anos, o início de um novo ano letivo é marcado por preocupações sobre como chegar à universidade e arcar com os custos do transporte diário, em vez da habitual empolgação de reencontrar colegas e professores conhecidos.

Depois que a guerra entre Israel e o Hezbollah forçou sua família a fugir de casa, na cidade de Nabatieh, no sul do Líbano, Nasrallah se transferiu para o campus Hadath da Universidade Libanesa, perto de Beirute, enquanto ela e sua mãe passaram a morar em uma casa alugada no distrito de Chouf.

"A guerra virou minha vida de cabeça para baixo", disse Nasrallah à Xinhua. "Saímos de casa às pressas depois que ela foi destruída. Não conseguimos nem levar nossas roupas ou pertences".

A vida em situação de deslocamento é difícil. A família agora paga cerca de 500 dólares americanos por mês pelo aluguel do apartamento em Chouf, enquanto Nasrallah gasta cerca de 20 dólares por dia com o transporte de ida e volta para a universidade, segundo sua mãe, Rana.

"Em alguns dias, simplesmente não temos condições de pagar o custo para chegar à universidade", disse Nasrallah.

Para Nasrallah, um desafio ainda maior tem sido acompanhar os estudos em meio ao conflito. Ela disse que as interrupções a impediram de cumprir as exigências acadêmicas dentro do prazo. Ela também desenvolveu problemas de visão, dores de cabeça frequentes e tonturas.

Foto tirada em 5 de março de 2025 mostra a destruição deixada por operações militares israelenses em uma escola pública em Ramyeh, no Líbano. (Foto de Ali Hashisho/Xinhua)

"Minha mãe precisou vender uma joia para custear meu tratamento médico e algumas das minhas despesas educacionais", disse Nasrallah.

A experiência de Nasrallah reflete as dificuldades enfrentadas por muitos estudantes de zonas de guerra no Líbano, enquanto se preparam para iniciar mais um ano letivo em meio a uma incerteza contínua.

Uma avaliação nacional realizada pelo Ministério da Educação e Ensino Superior do Líbano em junho constatou que 340 escolas públicas, privadas e de ensino técnico e profissionalizante foram danificadas durante a guerra, incluindo 17 que foram completamente destruídas.

Os danos afetaram várias províncias, incluindo Nabatieh e o Sul do Líbano. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) alertou em julho que pelo menos 100.000 crianças poderiam ficar sem sala de aula no início do novo ano letivo, caso reparos urgentes não fossem realizados antes de setembro.

Mesmo para os estudantes que conseguem retornar às escolas, os desafios do aprendizado persistem. Com Israel ainda realizando ataques ocasionais no sul do Líbano, o som de explosões e drones continua pesando sobre os estudantes, criando uma atmosfera de medo e ansiedade que pode prejudicar o aprendizado.

"Estudar em meio ao som de drones, ataques aéreos e disparos de artilharia, e após perder parentes e entes queridos, torna difícil a concentração dos estudantes", disse à Xinhua Hassan Jaber, professor da Universidade Libanesa.

Um homem libanês aparece em uma foto perto de prédios destruídos por um ataque aéreo israelense em Haret Saida, no sul do Líbano, em 4 de março de 2026. (Foto de Ali Hashisho/Xinhua)

Essas condições, acrescentou ele, afetam diretamente o desempenho acadêmico e aumentam as pressões que os estudantes enfrentam, tanto dentro quanto fora da sala de aula.

A psicóloga Amani Hamdan disse que os efeitos podem perdurar muito tempo após o fim do conflito.

"As condições de vida, econômicas e de segurança vivenciadas pelos estudantes geraram altos níveis de ansiedade e estresse", disse Hamdan à Xinhua, acrescentando que muitos perderam a sensação de estabilidade necessária para se concentrar e aprender.

O deslocamento, a perda de moradias, a pressão financeira e o medo de novos ataques podem afetar a saúde mental dos estudantes, disse ela.

Hamdan defendeu a oferta de apoio psicológico e aconselhamento nas escolas, assim como adaptações acadêmicas para os estudantes afetados, incluindo maior flexibilidade nas avaliações, quando necessário.

Com a aproximação do novo ano letivo, Rana mais uma vez vendeu um par de brincos que guardava com carinho há anos para ajudar a pagar a mensalidade escolar de sua filha, Nasrallah. A vida continua, mas o fim da guerra permanece uma perspectiva distante.

"Não sei por quanto tempo mais vou aguentar", ela murmurou.

Fale conosco. Envie dúvidas, críticas ou sugestões para a nossa equipe através dos contatos abaixo:

Telefone: 0086-10-8805-0795

Email: portuguese@xinhuanet.com